Parece que a pandemia está mudando alguns hábitos pelo mundo. Será?

Sabemos que para mudar hábitos precisamos ter uma mudança na rotina e sair da tão falada zona de conforto. Pois bem, parece que uma crise sanitária mundial está contribuindo para levar mais pessoas a usar a bicicleta como meio de transporte e mudar a fotografia do trânsito no mundo.

Desde já peço desculpa ao leitor, pois irei interromper o seguimento do raciocínio para contar como a bicicleta virou um hábito na minha rotina.

Mudança de hábito

Em 2010 adquiri meu primeiro carro. Não duraram seis meses para perceber a perda de tempo, custo elevado e tempo de vida perdida dentro de um carro. Sendo assim, comprei uma bicicleta, e quem ficou para passeio guardado na garagem foi o carro: desde então me locomovo para trabalhar com ela até hoje, não interessa o horário.

Como dou aula muito cedo, lembro que no horário das 05h30min até umas 06h30min durante quase dois anos, eu era o único ciclista neste horário no meu trajeto. Hoje em dia são dezenas, a qualquer hora do dia. Antes da compra do carro me locomovia em transporte público e muito bem, mas como todo brasileiro precisava de um ‘’CARRO’’, vamos fazer uma ressalva: o carro é um símbolo de prosperidade na sociedade brasileira. E foi através da aquisição deste símbolo que percebi que meu trajeto de deslocamento poderia ser tranquilamente ‘’saneado’’ pelo uso da bicicleta.

Dica: Se o seu trajeto tem entre 2 km a 8 km, e tem pouca ou nenhuma elevação, nem pense duas vezes: compre uma bicicleta e desfrute da sua ida e volta do trabalho, gerando saúde para seu corpo, economia para seu bolso, contribuindo para o trânsito, meio ambiente e enxergando a cidade com outros olhos.

Pandemia X Bicicletas

Será que esta crise sanitária mundial provocada pelo COVID-19 no mundo terá poder o suficiente para fazer mudanças de hábito profundas e tirar grande parcela de pessoas da sua zona de conforto?

Será que abandonamos o uso de carros pela crise financeira ocasionada pela pandemia ou porque já levamos em consideração a crise do meio ambiente e de mobilidade urbana provocada pelos automóveis?

Será também que iremos abandonar em grande porcentagem o uso dos transportes coletivos pelo distanciamento social provocado pela pandemia?

Será uma nova era do transporte individual de curta e média distância não motorizada nos centros urbanos a “bicicleta’’?

Como sempre o velho mundo dá o primeiro passo quando o assunto é custo e benefício.

Na Europa já se investia muito neste seguimento desde a crise do petróleo de 1970, tendo como modelo a capital das bicicletas no mundo , a cidade de Amsterdam na Holanda, que nada mais é do que a cidade onde fica a sede da Shell, uma das maiores empresas de petróleo do mundo, onde quase ninguém usa mais carro. Também na Paris de 1970 um dos monumentos mais conhecidos a Torre Eiffel era outdoor de marcas de veículos nacionais e todo o seu largo era um grande estacionamento de carros, assim como temos em  várias praças e arredores de monumentos  no Brasil hoje em dia. Imagine a Torre Eiffel um estacionamento, que mudança na fotografia hein, parabéns aos Europeus que proíbem hoje em dia o estacionamento e circulação de automóveis em grande parte de suas cidades.

Na Europa, EUA e aqui no Brasil tem se mostrado um aumento significativo do uso da “bicicleta’’ como meio de transporte durante a pandemia.

Na França, uma rede de varejo chegou a registrar aumento de 300% em vendas online.

Londres passa por uma transformação, ampliação de calçadas, demarcação de novas ciclovias.

Segundo o primeiro-ministro Britânico Boris Johnson, o objetivo do governo é multiplicar por 10 o número de quilômetros percorridos por bicicletas. É a nova era das bicicletas, disse o Ministro.

Na França, o governo criou um fundo de 20 milhões de euros para financiar reparo em pneus, freios e luzes em bicicletas.

Na Itália, o governo auxilia em 500 euros o cidadão para adquirir uma bicicleta; em Roma, conhecida por ter um trânsito caótico, foram planejados 150 km de ciclovia.

Existem projetos para novas ciclovias em inúmeros Países do mundo como EUA, Colômbia, Espanha.

Em Porto Alegre, capital dos gaúchos, lojistas tem registrado aumento de 15% até 28% nas vendas em relação ao mesmo período do ano passado; a demanda nas oficinas teve aumento de 60% em relação com o período do ano anterior. Tem lojista que ficou sem estoque de Caloi, marca nacional conhecida e de extrema qualidade. Os modelos mais vendidos são os mais baratos, dizem eles, até pela instabilidade econômica da pandemia.

O mais importante é a mudança no hábito e isso está se mostrando em números no mundo inteiro.

A própria OMS, dia 25 de abril, divulgou em seu escritório europeu que recomendava o uso da bicicleta no deslocamento em virtude do distanciamento pela pandemia.

Viabilidade econômica

Custo de um metro de ciclovia: R$ 120,00.

Preço médio para asfaltar uma rua: R$ 350,00 o metro quadrado.

Em 15min dedicados a pesquisas na internet, percebemos que  os números de custo de produção e manutenção entre ruas e ciclovias têm um cânion de distância e isso é papel do gestor público. Ele tem o dever de saber o que é mais efetivo e menos oneroso para os cofres públicos, que nada mais são do que abastecidos por quem trabalha.

Saúde X Bicicleta

Todos sabem que nossa população adoece muito e envelhece mal.

Segundo a OMS, o Brasil é o 5° pais mais sedentário do mundo e o 1° da América Latina.

Por isso, eu pergunto:

Quantas pessoas estariam saindo do sedentarismo e da fila do SUS ou da consulta do plano de saúde e da dependência de remédios financiados pelo Estado ou pelo seu próprio dinheiro se elas fossem estimuladas a se locomover de bicicleta para seus trabalhos e suas atividades diárias?

Qual o impacto desta ação na economia nos cofres públicos? Gigantesca.

Qual o custo para o estado implementar isto? Infinitamente menor que os prejuízos de como está.

Vai dar certo?

Olha, temos somente exemplos que deram certo até agora.

Nossa capital, Porto Alegre tem um plano diretor de 2009, para fazer 500 km de ciclovias. No momento, temos 54 km e estamos em 2020. É explicito que o poder público escolhe errado seu modelo de mobilidade urbana.

Existem pesquisas no mundo inteiro comprovando que em deslocamentos de até 8 km a bicicleta leva em média 20min e sempre será este tempo pelo fato de não ter os contratempos do trânsito sendo automóvel ou transporte coletivo.

É comprovado que sai mais barato tanto para quem viabiliza a ciclovia, neste caso o Estado, como para quem usa a ciclovia, neste caso o ciclista.

Não quero acabar com os modais automotivos, mas sim mostrar que a bicicleta deve ser uma opção de locomoção e para tal se deve ter uma estrutura e um investimento do Estado, para o cidadão que optar por pedalar tenha um local seguro para se locomover também.

Reflexos positivos da locomoção de bicicleta:

  • Pessoas mais saudáveis
  • Menos custos com saúde
  • Menos acidentes de trânsito
  • Menos mortes no trânsito
  • Menos congestionamento
  • Menos poluição sonora e ambiental
  • Menos custo com transporte público
  • Economia de tempo e dinheiro aos adeptos.

Considerações finais

Não consigo entender nossos PRIVILEGIADOS mandatários dos cargos eletivos tendo um exército de assessores com inúmeros recursos não terem descoberto ainda os inúmeros benefícios da bicicleta.

Será que existe uma força obscura a qual não os deixa aplicar a obviedade das escolhas sadias para população com o nosso dinheiro?

Deixo aqui um desafio tanto para os atuais e futuros chefes de executivo e legislativo.

Mediante tudo que foi citado neste texto é notório que o impacto da bicicleta na mobilidade urbana é transformador em três áreas centrais: Saúde, Meio Ambiente e Economia.