A recente introdução do dispositivo robótico para auxílio das cirurgias laparoscopicamente executadas tem trazido consigo um maior apelo pela realização de procedimentos minimamente invasivos. A cirurgia robótica mantém os benefícios da cirurgia minimamente invasiva, que incluem:

  • a redução da perda de sangue,
  • menor risco de infecção e menos dor,
  • com recuperação mais rápida.

O Da Vinci Surgical System ®, ainda um monopólio industrial, permite que os cirurgiões realizem operações a partir de um console remoto, com instrumentos de robótica inseridos através de pequenas incisões.

O sistema cirúrgico Da Vinci ® e suas vantagens

O sistema cirúrgico Da Vinci ® é composto por três componentes principais: um console ergonômico do cirurgião, um totem de quatro braços cirúrgicos interativos junto ao paciente (denominado de patient side cart) e uma torre de vídeo de alta definição que abriga processadores do sistema dedicados (o chamado núcleo central ou core).

Os dedos do cirurgião manipulam controles que transferem remotamente às pinças todos os comandos, filtrando pequenos tremores ou movimentos muito bruscos. A visão acontece a partir de dois sistemas ópticos de alta qualidade que fundem a imagem e a transmitem ao console cirúrgico resultando em uma visão em três dimensões com altíssima definição (full HD). Os detalhes dos tecidos podem ser ainda, ampliados com aumento digital, sem perder sua definição, aumentando a imagem sem perder espaço para o avanço da ótica, sem perder compreensão na anatomia mais difícil.

O sistema oferece vantagens que o diferenciam dos procedimentos videocirúrgicos “convencionais”.

O movimento robótico tem alta precisão, atuando dentro de um sistema de ação que replica os movimentos realizados no console do cirurgião com mais precisão, não possuindo nenhuma atividade autônoma. Além disso, possui sete graus de liberdade de movimento, amplifica em até quinze vezes o campo operatório com a formação de uma imagem captada por duas câmeras que determina uma visão tridimensional do campo cirúrgico apresentada em alta definição como já citado. Também acrescenta a possibilidade do cirurgião operar em uma posição melhor do ponto de vista ergonômico. Estas vantagens desencadeiam uma inexorável tendência pela aquisição e treinamento neste dispositivo, o que determinou um crescimento vertiginoso da oferta desta modalidade cirúrgica nos EUA, passando de um robô em 1999 para quase mil robôs em apenas uma década. Na Urologia, mais de 80% das prostatectomias radicais são hoje executadas, nos EUA, através de um robô.

Outra grande vantagem da cirurgia robótica é a facilidade de incorporar processos de inteligência artificial e informações que aumentam a segurança do procedimento. Por fim, a plataforma robótica também permite que um cirurgião opere um paciente à distância. Realizado pela primeira vez em 2001, quando o Professor Jacques Marescaux operou de Nova York um paciente locado em Estrasburgo na França, a telecirurgia depende tão somente da velocidade e segurança da conexão e tem um potencial extraordinário e revolucionário no atendimento de pacientes complicados e para a realização de procedimentos cirúrgicos de alta complexidade.

O impacto da robótica na cirurgia e seus desafios

O impacto da robótica no custo-efetividade da atenção à saúde no sistema brasileiro ainda não pode ser mensurado. No momento em que são poucos os hospitais do país detentores desta tecnologia, prevê-se um longo percurso na definição destes parâmetros. Nos EUA, o custo médio deste procedimento foi calculado em torno de 15% acima do custo da laparoscopia convencional. Espera-se que a natural redução de custos após os primeiros anos de sua introdução possam justificar uma maior disseminação do método.

A aplicação cada vez maior de avanços tecnológicos na medicina tem gerado, de forma crescente, em pacientes, cirurgiões e hospitais preocupação sobre como introduzi-los e utilizá-los de forma segura e eficaz na prática clínica. Incorporações tecnológicas determinam o aumento da complexidade dos procedimentos e a realização de novos procedimentos, o que gera a necessidade da aquisição de outras habilidades motoras. O futuro da cirurgia encontra-se relacionado à implantação de novas tecnologias que provocam desestabilização no desempenho do cirurgião, desafiando-o a mais um passo na aprendizagem para reforço de suas habilidades adquiridas, aplicadas a estas novas situações.

Cada nova implantação tecnológica requer um processo de aprendizagem específico. O processo ensino-aprendizagem da cirurgia minimamente invasiva executada através do dispositivo robótico tem merecido uma atenção especial e trazido a discussão várias questões. Cada vez mais estas questões, que envolvem aspectos éticos, econômicos, educacionais e de aplicabilidade clínica, nos remetem ao início dos anos 1990, quando a videolaparoscopia iniciava a sua disseminação como tecnologia disruptiva que revolucionaria a cirurgia.

Considerada inicialmente muito cara, complexa e aplicada aos pacientes por cirurgiões muito pouco treinados, esta tecnologia recebeu muita resistência por parte de diferentes setores, mas acabou por se estabelecer de forma clara como o padrão-ouro para o tratamento de grande parte das doenças em diferentes sistemas orgânicos e em várias especialidades cirúrgicas.

Cabe salientar que o ambiente videocirúrgico é aquele no qual a grande maioria das vezes a plataforma robótica é aplicada. A evolução tecnológica que determinou uma evolução bastante significativa na qualidade dos equipamentos e dos instrumentais videocirúrgicos e a evolução técnica dos cirurgiões, ancorada no desenvolvimento de metodologias de ensino e treinamento baseadas em simulação, foram fatores fundamentais para o estabelecimento da videocirurgia.

Mais de 25 anos depois, cirurgiões, hospitais, sistemas de saúde e a indústria parecem esquecer as inúmeras lições aprendidas com a videocirurgia, quando enfrentam a aplicação da cirurgia robótica.

Referências:

  1. Pradarelli JC, Thornton JP, Dimick JB. Who is responsible for the safe introduction of new surgical technology?: An important legal precedent from the da Vinci surgical system trials. JAMA Surg. 2017;152:717–7180.
  2. Pradarelli JC, Havens JM, Smink DS. Facilitating the Safe Diffusion of Surgical Innovations. Ann Surg. 2018 Nov 29.
  3. Stefanidis D, Fanelli RD, Price R, et al. SAGES guidelines for the introduction of new technology and techniques. Surg Endosc. 2014;28:2257–227).
  4. Herron D, Marohn M; SAGES-MIRA Robotic Surgery Consensus Group. A consensus document on robotic surgery. http://www.sages.org)