Nos dias atuais, a dor persistente (o mesmo que crônica, mas prefiro o termo dor persistente – acho menos rótulo), no sistema musculoesquelético, tem se tornado um grande desafio para profissionais da saúde e pesquisadores.

Este assunto foi revisado em um estudo publicado em 2016, no The Lancet Journal, uma revista cientifica de grande impacto na ciência e uma das mais conhecidas e respeitadas do mundo. Sua sede está localizada na Inglaterra e foi fundada em 1823 pelo cirurgião e membro do parlamento Inglês Thomas Wakley (1795-1862). O artigo, intitulado "Global Burden of Desease Study" (2015) (Estudo sobre o gasto global das doenças), apontou a dor persistente nas regiões no pescoço e lombar como as líderes, dentre as doenças não transmissíveis, de incapacidade funcional vividas pelos pacientes e ainda como sendo também as que causam maiores gastos para as seguradoras e também para os programas de saúde dos governos.

A análise deste estudo foi conduzida de 1990 a 2015, em todos os continentes do mundo, e uma das muitas interpretações que podemos fazer é que o modelo de entendimento dos fatores causais das dores persistentes e os tratamentos estão sendo falhos. Pois, o modelo atualmente mais utilizado é o modelo Biomédico, em que é definido e entendido que o fator causal da dor vem:

  • da estrutura do corpo,
  • do tecido,
  • dos ligamentos,
  • de sobrecarga mecânica,
  • posturas e articulações,
  • somando isso à processos degenerativos.

Ou seja, a dor é causada por uma lesão/dano na estrutura musculoesquelética.

Porém, a neurociência da dor contemporânea vem mostrando através de estudos científicos que muitas das alterações encontradas em exames de imagem como:

  • degeneração,
  • rupturas parciais,
  • tendinites,
  • inflamações
  • e até hérnias discais etc.;

também são encontrados em sujeitos sem dor.

Isso mesmo!!

Muitos dos “pseudo diagnósticos” dados a pacientes com dor persistente, baseados em exames de imagem e laboratoriais, são também encontrados em sujeitos saudáveis.

Isto nos faz questionar o modelo que vem sendo utilizado a tanto tempo para diagnóstico e tratamento da dor persistente, e o quanto a relação com a estrutura lesionada/danificada já não pode mais ser mantida.

Estudos apontam que a maioria dos tecidos musculoesqueléticos, após uma lesão estrutural, cicatrizam em no mínimo três meses, isto dependendo do tamanho do trauma, e, conforme a dor persiste, a relação com a estrutura danificada vai perdendo força.

Ok, entendido isto!! Mas, o que causa a dor persistente, então?

Causas da dor persistente

Os estudos têm mostrado que sua causa/origem é multifatorial, e todos os fatores são possíveis mecanismos perpetuadores da dor:

  • fatores biomecânicos,
  • emocionais,
  • sociais,
  • culturais,
  • cognitivos,
  • de aprendizados,
  • de prazer-recompensa,
  • de estresse,
  • de competição,
  • contextuais...

e muitos outros que talvez nem conheçamos.

Logo, parte da literatura afirma que a dor tem um carácter muito mais protetivo e a evolução contribuiu para aperfeiçoar esta reposta biológica, para que conseguíssemos sobreviver a todas as ameaças e passar nossos genes a frente.

Dor significa proteção

Isso mesmo, dor = proteção, mesmo quando torcemos o tornozelo, desenvolvemos um inchaço e calor na articulação, perda de movimento e muita dor, dor de não conseguir colocar o pé no chão!!!

Esta dor é necessária para preservar o tecido e facilitar a sua recuperação, e evitar que mais danos sejam causados ao tecido em recuperação.

Uma interação complexa entre mente-corpo produz tais mecanismos e o nosso cérebro parece ter um papel fundamental, pois ele decide quando é necessário maior proteção.

Pense no exemplo acima do entorse de tornozelo: imagine que você está atravessando na faixa de segurança e torce o tornozelo, e um ônibus em alta velocidade está vindo. O que você acha que irá acontecer? Estudos descrevem e hipotetizam que: seu cérebro irá fazer você sentir/perceber menos o tornozelo torcido, pois, um perigo maior está para colocar seu corpo em risco, logo, ele irá inibir a dor do tornozelo e produzirá ações motoras e cognitivas (pensamento de medo e estresse emocional), para fazer você sair correndo da faixa e salvar seu lindo corpinho (lembre-se: transmissão de genes para gerações futuras)!!

Mas, por que a dor persiste?

Nosso cérebro é fantástico, baseando-se em todas informações que recebe,

  • sensoriais do tecido,
  • sobrecarga mecânica,
  • posturas,
  • orientações médias,
  • orientações dos profissionais da saúde,
  • resultado dos exames de imagem,
  • conversas com familiares e conhecidos,
  • programas de televisão,
  • internet,
  • leituras ...

ele tem que tomar uma decisão, se ele achar que nossa região corporal (lombar, cervical, joelho ... ) e/ou corpo está em perigo, adivinha o que ele irá fazer: dor (ou pânico) para proteger nosso corpo, facilitar a recuperação e manter a integridade fisiológica do  nosso organismo.

Nosso cérebro é mesmo incrível: ele evoluiu durante milhares de anos e se aprimorou em nos proteger, e os estudos tem afirmado que a dor persistente pode ser uma proteção excessiva, com um sistema nervoso extra-sensível, alimentado por fatores:

  • sensoriais,
  • motores,
  • pensamentos catastróficos,
  • medos,
  • ansiedade,
  • estresse,
  • informações ameaçadoras...

e a lista de fatores é inimaginável, provavelmente existem muitos outros.

Pense nisso: quando sentir dor, ou conversar com alguém com dor persistente, diga que isso é sobre proteção e não lesão, e pense/fale que essa é uma forma evolutivamente adquirida de garantir nossa integridade física, emocional e social!!