Muito comercializado em academias, estúdios, centros de treinamento e pregado como divisor de águas na perda de gordura corporal pelos influencers fitness, a sigla em inglês HIIT “High Intensity Interval Training’’, em bom português seria "Treinamento Intervalado de Alta Intensidade", visando a exploração desta descoberta inovadora, que romperia o ‘’status quo’’ do treinamento físico.

Mas se tratará mesmo de uma descoberta e de uma inovação?

Vamos buscar na história.

A história do treinamento de alta intensidade

Há 2000 anos o filósofo do Império Romano Sêneca já dizia da eficácia dos exercícios simples de curta duração e de alta intensidade para se manter em forma .

Também temos o Tcheco  Emil Zátopek, referência como atleta e um precursor no treinamento desportivo no período pré-científico, por utilizar estratégias de treinamento nunca antes vistas, como, por exemplo, o "interval training", o qual foneceria, pela primeira vez, bases empíricas para as futuras pesquisas científicas sobre esse método.

A URSS e os países da Europa utilizaram muito tal método em seus treinamentos, conquistando medalhas e fama por sua eficiência em treinamento desportivo.

Com o fim dos regimes mais austeros e a globalização, o conhecimento acadêmico passou a ser imediato. Desta maneira, técnicas e métodos inovadores de treinamento passaram a ficar disponíveis para qualquer acadêmico, professor e pessoas no mundo inteiro, tanto em forma convencional, como livros e artigos em papel, como também de maneira virtual, como nunca antes em tempos atrás.

Contudo, em função de ser proveniente do meio acadêmico e da aplicação no meio desportivo de alto rendimento, não se pode simplesmente chegar utilizando este método em públicos sedentários, ou em crianças, jovens, idosos,  atletas recreativos etc..., pelo simples fato que em 30min nós gastamos muita caloria proveniente da gordura.

Mas, então, o HIIT não é bom?

Sim, é muito bom, é ótimo. Porém qualquer profissional de Educação Física, graduado, dotado de conhecimento teórico e prático, certamente não irá utilizar o HIIT como regra única de treinamento com seus alunos e também atletas, sete dias na semana, 30 dias no mês e 365 dias no ano.

O treinamento é dividido em períodos (Periodização). Todo praticante ou atleta tem uma individualidade biológica, estados hormonais, neurais e alimentares, diferentes uns dos outros. Por isso, é impossível prescrever um único método de treinamento sem ter um mínimo de individualização e periodização, para se ter sucesso, independente se for emagrecimento, ou não, o objetivo final.

O HIIT não é uma “fórmula mágica”?

Como todos os métodos provenientes do meio acadêmico desportivo são feitos para desenvolver e aperfeiçoar os rendimentos do atleta e não fazê-lo perder gordura, o HIIT não foi inventado para tal e por este motivo deve ter uma aplicabilidade em períodos de maneira aguda e não crônica no treinamento.

O HIIT não queima mais gordura que outros exercícios?

Qualquer atividade física que se tenha um aumento de intensidade irá gastar mais calorias em um espaço de tempo menor, se comparado com uma atividade de menor intensidade.

Quanto maior for a intensidade, mais calorias iremos gastar (sim, mais gordura). Quanto maior for esta intensidade, teremos mais tempo de EPOC (excess post exercise oxygen consumpition - excesso de consumo de oxigênio após o exercício). Se isto ocorrer e perdurar por mais tempo, conforme a intensidade da atividade, deixará nosso metabolismo mais acelerado.

Sendo assim, uma importante observação: 

Não podemos e não devemos fazer e nem aplicar o HIIT em nossos atletas ou alunos pelo fato de aumentar tempo de (EPOC). 

Para uma evolução em longo prazo, saudável e duradoura, os exercícios sempre serão de intensidade e volume variados.

Por isso, cuidado com a fórmulas mágicas do tipo:

  • Treine 30min e perca gordura.
  • Fique definido em 20min por dia.

Isso é saúde?

Não.

Quantos praticantes se lesionaram  e deixaram a atividade física por este motivo, por não estarem condicionados e por fazerem um HIIT aplicado somente visando a perda de gordura?

Quantas pessoas ficaram cansadas ao ponto de não conseguirem praticar algo no outro dia, pelo fato de no dia anterior terem extrapolado os limites do seu organismo?

Se você se alimentar bem, não precisará de exercícios para perder gordura. Então, comece pela sua alimentação e não buscando uma atividade que gaste mais gordura.

Uma boa razão para se praticar exercícios

A razão para se praticar exercícios deveria estar ligado muito mais nos benefícios para o sistema imunológico, cardiovascular, funções cognitivas, muscular, ósseo, conjuntivo, etc., e não no emagrecimento.

Acredito que a busca dos profissionais por novas ferramentas e métodos de trabalho na área agrega valor à profissão e à comunidade da Educação Física, mas esta busca deve sempre ser feita com cautela e aplicada com base em estudos teóricos, com muita base cientifica e prática, para não corrermos o risco de retirarmos o crédito de anos de estudos através de um método mal aplicado.

“Treine para sua saúde e não para seu ego”.

Enfim, sempre busque a orientação de um profissional de Educação Física capacitado!