Exercícios estão sempre em meus protocolos de reabilitação; desde um simples estiramento de posteriores da coxa, até uma tendinopatia do manguito rotador, ou um problema crônico de dor lombar. Mas eu tenho sempre observado um problema com eles, um grande problema, o cumprimento das orientações.  

“Não importa quão maravilhoso o exercício é, se ele não for executado não funciona”

Por que alguns pacientes não fazem o tema de casa?

Desculpas e transferência de responsabilidade.

Todos sabemos que o exercício reduz a dor (ref), também sabemos que não importa exatamente que tipo de exercício é dado para o cliente para reduzir a dor (lombar)(ref). Sabemos que exercícios produzem melhoras em diversos outros aspectos fisiológicos e trazem diversos benefícios para a saúde geral do sujeito(ref); e, mais importante do que isso, sabemos que a maior parte da população não pratica exercícios e isto é uma das principais causas de doenças crônicas(ref).

A desculpa mais comum que escuto é a falta de tempo (inclusive de clientes aposentados que vivem em casa, sem dependentes e com empregados domésticos); em outros casos até entendo que falte realmente tempo. Penso que executar três vezes no dia de 10 a 15 minutos de exercício é muito tempo mesmo (rindo baixo enquanto escrevo).

Então, muitas vezes passo apenas de um a três exercícios para o paciente executar em casa.

Mas, por que falta tempo, então? Será que eles são preguiçosos e encontram desculpas diversas para não fazer exercício.

Muitas vezes acreditava que ocorria a negação do problema (ocorre muito em pais com filhos com patologias neurológicas), mas após ler este artigo(ref), pude pensar de uma forma diferente.

Normalmente não pensamos em nossa identidade pessoal, digo, até que alguma lesão ocorra: nesse momento fica evidente que não estamos no nosso normal/habitual. Neste momento a dor e a lesão interrompem o nosso dia a dia, interrompem algumas atividades, e é ai que a percepção muda, quando vamos fazer uma atividade habitual e a dor vem à tona e aponta para nós dizendo que estamos quebrados, fracos e dependentes de outros.

Bom, a partir desse ponto aparece um profissional bem intencionado, que introduz alguns exercícios reabilitativos, que já interrompem as atividades do dia a dia e aumentam a percepção de fraqueza e dependência. Muitas vezes estes exercícios reforçam o padrão de comportamento errôneo, onde o cliente acredita estar quebrado. Talvez o cliente esteja relutante em aceitar que necessita ajuda?

Também faz parte de nosso trabalho escolher as palavras que vão reforçar padrões de comportamento. Devemos escolher entre palavras, fraqueza e força. Devemos salientar o otimismo e o realismo para nossos pacientes, fazendo-os crer que podem chegar em um nível melhor do qual estão, mas sempre realista.

Nós ou Eles

Então, podemos pensar que muitas vezes as barreiras que impedem os exercícios podem ser impostas pela nossa inabilidade de motivar, educar e ensinar os clientes.

Se você acredita estar com problemas para motivar seus clientes, aqui você poderá ver uma forma de motivação(ref). Para os que não leem em inglês, vou trazer uma tradução simplificada no box azul no final do artigo.

Será que a falta de cumplicidade dos clientes com os exercícios é causada pelas barreiras impostas por eles ou pela nossa falta de habilidade de ensiná-los e motivá-los?

Outro ponto de vista que não poderia deixar de fora é a necessidade de sentir-se cuidado. Por vezes, deparei-me com pessoas que estavam em situações de inércia, onde não havia qualquer menção de fazer algo por si.

O cliente se sentia confortável na situação que estava, onde nada o abalava e não havia necessidade de trabalhar ou se estressar, pois o cônjuge traria todo o necessário.

E nesta forma de impedir que saísse dessa inércia aparecia uma dor lombar incessante, que se somou a uma total falta de atividade física e um aumento do peso corporal, entrando em um ciclo vicioso.

Não poderia puxar esse cliente para fora de sua zona de conforto; era apenas ele quem poderia se retirar dessa situaçã. Como orientava exercícios que nunca eram executados, houve o convite por parte dele que eu o atendesse cinco vezes na semana.

Optei por não fazê-lo, e justifiquei para ele desta forma:

“...Você está passando a responsabilidade de sua melhora para a minha capacidade de trata-lo. Sendo que você deve assumir ter um problema e a capacidade para melhorar...”

Fiz com que pensasse no que fazia no dia a dia, sendo esse o relato: “...acordo tarde, próximo ao meio dia, fico a tarde toda no computador ou televisão; ficar muito tempo em uma mesma posição me dói e caminhar ou fazer exercícios é insuportavelmente dolorido, acho que estou fazendo-os errado”.

Pedi que demonstrasse os exercícios que eu havia orientado para ele praticar em casa; e todos estavam corretos: eram exercícios simples como, ponte, ativação do core e exercícios diagonais de membros superiores.

Argumentei o que gostaria de mudar em sua vida, utilizando as perguntas de sugestão encontrei algumas brechas e incrivelmente após duas semanas o cliente passou de 1 minuto e 30 segundos caminhando sem dores para 20 minutos consecutivos sem dores na região lombo-sacra (onde era a sua queixa).

Temos que fazê-los alcançar a melhora, e por vezes isso deve vir do próprio cliente.

Estratégias de motivação para clientes com baixa adesão aos Exercícios Domiciliares

Laços de confiança entre o profissional e o cliente.

  • Focar no equilíbrio de decisões
  • Auxiliar a compreensão na mudança de crenças e valores.

Podemos montar uma entrevista motivacional, ou comparativa (ref)

  • Reenquadramento, superação, juntamente com mudança de foco e ênfase na autonomia.
  • Na entrevista teremos “Argumentos para a mudança” tentando reduzir “argumentos da própria pessoa para não mudar”

Primeiro, “erga a cabeça do cliente”

  • Faça questões abertas sobre o seu status quo, definir os problemas e debater com o cliente, também deverá perguntar para o cliente os prós de realizar esta mudança em seu comportamento.

Segundo, faça-o “olhar para frente”:

  • Faça-o construir dois futuros possíveis em sua imaginação e considerar um onde seria muito útil a intervenção por atividade física.  
  • Perguntas como: Qual o futuro ideal para você? O que incomoda você mais?
  • Se você iniciasse uma mudança como seria sua vida no futuro?

Enfim, a comparação entre prós e contras poderá auxiliar o cliente a perceber qual seu real motivo para engajar no tratamento e deixar seu atual estado de inércia.