A missão era completar a  primeira ultramaratona da vida,  prova realizada em 30 de novembro de 2019. Treinos que me fizeram até mesmo duvidar de minhas capacidades psicológicas e físicas em alguns momentos. Mas, com ajuda de pessoas muito especiais, consegui concluir com um bom desempenho e me superar profissionalmente e pessoalmente.

Decisão

Como todo corredor eu estava procurando provas para realizar em 2019. Havia separado algumas delas no início do ano, embora tivesse feito apenas as de 5km, 10km e 21 km. A maratona de Porto Alegre já tinha acontecido, onde realizei os 21km pela terceira vez com um desempenho bem melhor do que as anteriores, sendo essa prova, até então, a que mais gostava de fazer, pois é uma prova longa, embora possa ser rápida também. Então, maratona aqui por perto apenas em 2020.

Navegava em sites de provas de corrida e uma chamou a minha atenção: a summer 48k. Até aquele momento não tinha realizado maratonas com essa kilometragem. Ou seja, sairia de meia maratona de 21.097 km para uma ultramaratona, com quilometragens acima de 42.195m, prova que seria realizada em 30 de novembro de 2019. Era julho de 2019; pensei por uma semana como poderia fazer acontecer os treinos, sendo que tinha de 16 a 20 semanas para me preparar: alimentação, tempo de preparação, como faria para continuar com meus atendimentos, logística de casa, enfim, todos os compromissos para tocar a vida normalmente.

Conversei com a minha esposa, pois ela também havia se tornado corredora, adquirindo a paixão por correr, assim como eu. Ela ficou um pouco preocupada com a logística envolvida neste caso, treinos, alimemtação, mas me ajudou a programar atividades extra-treino, assim como a logística em relação aos meus próprios treinos, agora mais longos: ela ficaria em pontos estratégicos, para entregar hidratação e alimentos, se necessário.

Então, em agosto comecei a treinar. A disponibilidade eram três dias na semana, de duas a três horas correndo, e atividades de 30 a 40 minutos de fortalecimento específico, de força no quadril, estabilidade de joelho e exercicios para o core (centro do corpo). Primeiro mês tudo certo, corri por volta de 140km, falhei apenas em um treino, mantive bem a rotina, estava em dia com exercicios de fortalecimento, assim como com a alimentação: um detalhe extremamente importante é a disciplina, pois nem sempre estaremos motivados para um planejamento longo.

Setembro chegou e com ele os kms foram aumentando. Percorri 168 kms neste mês; a minha principal dificuldade era que o percurso da prova seria na praia e em sua totalidade na areia. Utilizei trajetos em grama, terra, terreno acidentado, subidas, descidas, trajetos que me deixassem mais desconfortáveis, pois seria justamente isso que encontraria na praia. Outro ponto: não gosto de correr em formato de circuito, dando voltas ou ir até certo ponto e voltar; gosto de sair de um ponto e chegar até outro ponto: mentalmente me sinto mais confiante e confortável, dessa forma. Porém, a ideia de fazer essa prova era justamente sair da zona de conforto. Pensando nisso, realizei treinos que me exigissem mais mentalmente e, nesse sentido me deixassem mais forte, de forma a continuar confiante  e motivado. 

Outubro chegou. Esse mês foi crucial para saber se estava pronto ou não.... Pois, os kms aumentaram exponencialmente: foram 235km, e vieram dificuldades com a alimentação durante os percursos mais longos: tive diarréia, vômitos, até acertar os alimentos que o corpo tolerava durante a fadiga. Porém, no final desse mesmo mês eu tinha um treino de 30km para realizar e estava visitando minha sogra na cidade de Mostardas, litoral sul do Rio Grande do Sul. Pesquisava alguns alimentos, a fim de utilizar durante a corrida. Para esse treino consumiria aipim cozido durante o percurso: a sogra cozinhou e eu o levei. Na noite anterior preparei tudo para levar para o percurso: hidratação e  alimentos; mentalizei o percurso, seria em uma rodovia que aqui no RS chamam de estrada da morte, pois é bem ruim a estrada, esburacada e perigosa, mas como uma amigo falou uma vez: ''tá no inferno...abraça o capeta''.

Acordei cedo e fui; tinha muito vento, a temperatura estava muito agradável e eu estava inspirado naquele dia: mente forte, corpo respondendo; consegui exigir mais do meu corpo em alguns momentos, mudando de ritmo confortável para um pouco mais forte (o corredor que estiver lendo me entenderá: estava empoderado do meu corpo de uma forma que jamais havia sentido antes; adrenalina circulando; esse dia foi "louco" rsrsrs).

Novembro chegou. Agora era reta final, fase de polimento, o  que significa aumentar a intensidade e diminuir o volume (kms). Nesse mês percorri 146km apenas; estava um pouco ansioso, acertando os últimos detalhes para a prova, pois minha esposa e meus pais estariam junto durante toda a prova, para dirigir e me encontrar em dois pontos durante o trajeto, a fim de me alcançar água de coco, isotônico e alimentos, se necessário. Nesse mês, não tive quase dificuldades, pois estava mais leve: de 74kg fui para 65 kg; meu corpo estava bem eficiente mecanicamente, energeticamente a mentalidade estava alegre e positiva. 

A PROVA

Chegou o grande dia: largada na beira da praia de Itapeva, próxima de Torres\RS.

Sempre preparo no minímo duas estratégias para as provas: a mais audaciosa e a mais cautelosa. É aí que os treinos são muito importantes, porque eles nos colocam à prova, desafiando-nos e nos fazendo solucionar os mais diversos problemas e, do fundo do meu coração, os problemas virão e, dependendo do problema, podem acabar com a gente, com a nossa prova e planejamento, mas uma mentalidade forte, ágil e prática certamente ajudará a resolver os possíveis problemas.

E os problemas vieram....rsrsrsrs: eu estava com uma mochila de hidratação que abasteci com 1,5litros de água, na noite anterior à prova, e a coloquei em minhas costas na largada; mas, após 2 km, percebi que as minhas costas estavam muito molhadas. Achei estranho e quando me dei conta estava sem água na mochila..... Continuei correndo, tirei a mochila das costas e, não sei como, a bolsa de água estava furada e perdi toda a água... Então, pensei rápido como resolver, pois tinha percorrido apenas 5 km da prova. Pensei comigo: "estou mais leve, posso correr mais rápido". E foi o que fiz: percorri os primeiros 30km inteiro, como no dia em que me empoderei do meu corpo e mente.

A prova tinha muitos pontos de hidratação, não sendo problema para meu desempenho. No primeiro ponto que minha família me encontrou entreguei a bolsa de água furada e sentei a bota..... Na parte da alimentação foi tudo ótimo: consumi os alimentos que utilizei em meus treinos mais longos; a familia me ajudou a me manter vivo e motivado.

Durante o percurso conversei com muitos corredores que estavam cansados como eu, mas dávamos força uns aos outros, para continuarmos, compartilhando histórias de lesões e de superação. Dessa forma, mantive-me firme; o sol estava forte, mas a vida continua até a linha de chegada, e conclui a prova como tinha planejado.

Estava com uma exaustão enorme, tão grande que me emocionei umas seis horas após a prova, já em casa, descansado, olhando para minha medalha de participação. Essa prova, com certeza, me fez uma pessoa melhor, pois sempre encontramos pessoas que compactuam com nossos sentimentos e incertezas e, ainda assim continuam. Agradeço muito a todos que me ajudaram durante essa trajetória: minha esposa, meus pais e as pessoas que conheci durante a prova: muito obrigado!!